O Novo Extremismo Francês insurge em meados dos anos 1990, termo forjado pelo crítico da Artforum, James Quandt (2004), ao perceber uma nova safra de filmes franceses com conteúdo transgressivo. Como dois extremos da transgressão, sexo e violência são regulados como resultados à fratura de normas sociais, antes “pouco aceitáveis” ou “tabus”, e às mudanças, em consequência dessa ação. Em sua representação pelo Extremismo, o ser humano se faz triste e solitário, devido a alguma provocação inesperada. O Extremismo constitui uma tendência cinematográfica, através das sensibilidades relacionadas a atos de dissidência, definidos como transgressivos, dentro de um corpo individual de realizadores e de seus filmes. É comum, aos três filmes que analiso, personagens que agem contra alguma coisa de intolerável, de insuportável, de uma situação impossível de ser vivida.
Em “Irréversible” (2002), Gaspar Noé explora o ser humano, enquanto animal, movido pelo instinto sexual. Não há limite para as ações. Fatalista. Irônico. Imediatista. Expõe Noé com isso toda a sujeira que envolve a situação: um estupro e a vingança deste. A “face obscura da sociedade” está em primeiro plano: loucos, prostitutas, transexuais, cafetões, assassinos, estupradores, drogados. As camadas vão se desnudando. Pelo corpo, a sexualidade como expressão de um vazio, de um desencanto, que está no sexo. Este se torna um campo de expressão de relações de poder. Não há julgamento moral entre o que está à frente e o que está atrás, entre internas e externas, entre presente e passado. Fundo e forma coabitam e se ilustram mutuamente. Existe algo que veio antes, e é preciso fazer a arqueologia dessa anterioridade. Por estilhaços e fragmentos, o tempo manifesta a “transgressão”, com efeitos estroboscópicos, com imagens cambiantes, inquietas. Montar não é mais lapidar o material bruto em direção a uma forma significante, e sim gerar o continuo por uma soma das intensidades das sequências. Filma-se por acrobáticas e aéreas piruetas. Filma-se para provocar o espectador. Questiono-me sobre o significado desse provocar o espectador. Não penso na palavra sadismo a princípio. “Eisenstein já havia observado que toda sociedade recebe imagens em função de sua própria cultura” (FERRO, 1992, p. 17). Isso para afirmar o risco que há na recepção do espectador, pois um longo plano sequência de estupro pode ser menos provocativo que um plano fechado de um pássaro morto. Logo, “Irréversible” (2002) surge do embate entre a imagem que deseja construir por um provocar e o se trair por essas imagens. A montagem inversa. O movimento de câmera vertiginosa. A trilha nauseante. Esse filme é uma tragédia: vida e morte entrelaçados. O transgressivo emerge por esses elementos combinados ao exposto nas imagens, nos discursos e nas ações de seus personagens. O tempo da busca. O tempo de tensão. O tempo do retorno. O tique-taque do relógio lateja. O instante é semente viva. Conta-se os instantes que são grossos pingos de sangue.
Em “Trouble Every Day” (2001), o canibalismo é uma obsessão e uma metáfora fundante. O tabu, que pesa sobre essa prática, é importante operador para a representação de um comportamento social patológico. O canibalismo, então, migra do registro de uma dieta ilegítima para uma patologia sexual. Nenhuma fronteira é permanente, nem mesmo a diferença entre o homem e as outras espécies. Denis não trata essa patologia como um tema meramente ilustrativo. O potencial do canibalismo é subsidiado na tortura, como forma extrema de um desejo sexual, de um erotismo. Na medida em que Denis transforma esse (canibalismo) em objeto de ação, Denis toma uma atitude regressiva. Denis quer ir além de uma experiência do vivido. Ela quer adentrar a carne. Perfazer as entranhas. O sexo e a violência são extremos para o representar de seu filme, que é carne e sangue. A sequência inicial, o beijo é uma metonímia para o sexo. O filme é o beijo. Em primeiro plano, o beijo de personagens alheios permite acesso aos detalhes do filme: a mão do homem que perpassa o corpo de sua amante e a aprisiona. Em Denis, não há espaço para penalização dos transgressores. Não há um medo de punição. Não há uma construção de qualquer punir da sociedade contra esses transgressores. Os canibais de Denis buscam se libertar de si, a partir do embate com o outro presente dentro deles. A punição é sempre deles por eles mesmos. Denis faz seu filme pelo não dito. A sensação de ser um animal, um jaguar, de ser obrigado a se alimentar do semelhante pelo desvario de um desejo incontrolável. Shane ejacula no espelho e é engolido pela sua escuridão. Coré anda de lá e para cá com sua camisola encharcada de sangue e é estrangulada em meio as chamas. Não há outra forma de começar de novo ou fugir desse estado doentio. A raccaille (escória) da sociedade está em Denis, mas o lugar que eles habitam os tornam invisíveis.
Pierre ou as ambiguidades. Em “Pola X” (1999), de Leos Carax, é constante um ocultar do rosto de seus personagens. O rosto é ponto de concentração do sentido daquilo que se procura, quando se quer respostas. Carax nega os rostos e, com essa escolha, faz ver o que esconde outra coisa. Paralisado frente a seus sonhos, Pierre está apaixonado por um rosto estranho. A estranha do sonho existe. Pelo desvelar, chega-se à verdade: o rosto estranho dos sonhos de Pierre é na verdade o rosto da estranha que mexia no lixo do castelo há um mês, a sua meia-irmã imigrante da Europa Oriental. Pierre abandona o castelo e o prado para viver no covil, que abriga a face obscura da sociedade francesa. A força da escuridão, da ferrugem. Há uma instabilidade permanente em Pierre. Revela-se, em sua instabilidade, um caráter opressor. A violência emerge, e nunca explode. Essa violência é a força das águas contra o corpo que luta para não se afogar. Pierre toca a mão de Isabelle, que beija a sua. “Ma soeur”, diz Pierre ao Isabelle realizar tal gesto. Com esse mesmo vocativo, Pierre cumprimentara Marie. No castelo, Pierre diz que era cego e, graças a Isabelle, ele é um outro Pierre. De fato. Ele não é mais o Pierre de Marie ou Lucie. É a mão do rosto estranho que ele passa a beijar. O desvio nessa relação. A sexualidade é catalisador desses personagens transgressores. À margem da sociedade, Isabelle e Pierre são amantes. Na escuridão, os corpos se abandonam e rompem qualquer questão ética ou moral. Os irmãos-amantes se fazem um. Erotismo. Toque. Atração. Excitação. Degradação. Consumação. Pelo desvio, o abjeto nas imagens de Carax. A sequência de sexo explícito entre os irmãos é devastadora, violenta. A pior doença da humanidade. Isabelle e Pierre cedem ao desejo, ao instinto, tal como os canibais de Denis. Carax paralisa o tempo. “Pola X” (1999) é o pensamento de Carax tornado visível. Como um ditador, Carax só faz acontecer o que ele quer. Há um desejo, um fruir existencial, uma memória vagueia. Não se é ambíguo ou não o deseja ser? Ambíguo implica estado de fato ou situação de possibilidade de interpretações diversas, de equívocos. Pierre E as ambiguidades. A saída do castelo, o não reconhecer no apartamento de Tia Maxine, a cisão final em uma calçada no centro de Paris sob a luz do dia. Declarou-se a morte de Pierre. E o morto retornou para gritar seu ódio. Irreconhecível. Não há perdão nem coragem para o pedir. Atos de dissidência por um não palatável: a obsessiva relação entre irmãos.
O Novo Extremismo é tomado como produto de uma raiva de seus realizadores. Estes não almejam ou têm esperança de mudança. Seus filmes acontecem em um estado de emergência. A transgressão é organizada de forma a dar materialidade ao “real”. Filma-se por querer ver desabrochar de um modo ou de outro o que esse “real” tem de insuportável e, com esse, confrontar o espectador. Realizadora associada ao Extremismo, Catherine Breillat considera a superexposição às emoções intensas uma exigência da condição alienada em que se encontra o indivíduo contemporâneo. Logo as mudanças sociais e políticas não são o único catalisador para essa tendência cinematográfica. Nem apenas o mau resultado da popularidade de políticas de uma direita alienada francesa. Acredito que há uma conexão entre esses fatores. Contudo, o desencanto sentido pelos realizadores, em relação à forma fílmica e sua força política, faz parte do processo central de criação e de formação do Novo Extremismo.
Pela análise da “face obscura da sociedade”, segundo Dicionário do Pensamento Social do Século XX (ARBLASTER, 1996, p. 152), a abordagem da transgressão tem sido com frequência ampliada e aplicada aos problemas não convencionais. Isso porque pensadores sociais, como Peter Newman (ibid., p.152), consideram o ato de transgressão um ataque, uma provocação, uma violação às expectativas ou normas sociais, passível de punição. Falar de transgressão implica um desviar, uma ruptura. Adquire, então, o significado de um ato de agressão que causa dano, prejuízo. Segue uma lógica anônima, subjetiva, por um experienciar da sociedade contemporânea. Tal experienciar pelo incorporar à narrativa o comportamento de seus personagens. O transgressivo presente nesses personagens é reconhecido e “valorizado”. Tornar os olhos para esses e tentar tatear suas diferentes formas de existência. Em Noé, a partir de um reverso. Em Denis, a partir de um desejo. Em Carax, a partir de um segredo.
