quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Da guerreira-flor, o tear de uma nação


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Interessa-me aqui fazer um breve estudo de A balada de Mùlán, tendo como fio condutor para desenvolvimento dessa proposta a análise poética de Huā Mùlán (2009), de Jingle Ma e Wei Dong. A partir da identificação do norte dessa adaptação cinematográfica, busco apontar e compreender a representação da guerreira-flor.

Huā Mùlán (2009)
Huā Mùlán (2009)


Transpõe-se as altas muralhas do Himalaia. Entre cordilheiras e pradarias, o deserto evidencia a lesão à deriva. Paredes não aderem aos vasos. Não há como lutar contra os agressores. Faltam nutrientes e oxigênio. Esvai-se desprotegida a Magnoliaceae Liliflora: Huā Mùlán. Esta é a guerreira-flor, de onde, segundo a etimologia tradicional, provém seu nome: Huā[1] pode ser traduzido como flor na língua Portuguesa; Mùlán faz referência à Magnólia, planta de excepcional longevidade e florescimento intenso – progressivo com a idade da planta.
Fruto do imaginário arcaico, A Balada de Mùlán[2] é reforçada como símbolo de bravura, lealdade e nacionalismo. A adaptação de Jingle Ma e Wei Dong parte de uma antologia literária organizada por Guo Maoqian (séc. XII). As primeiras referências à guerreira-flor datam da Dinastia de Wei (386 a 534 d.C.). Tal como descrito na balada anônima, este foi um período de sucessivas invasões de tribos nômades e guerras consequentes.
A guerreira-flor emerge em um cenário patriarcal para assegurar a sobrevivência do velho pai carente de filho varão. Treinada desde cedo pelo mesmo nas artes de espadachim e Kung Fu, ela não espera até a outra vida para lutar e assim desarticula o protagonismo do herói masculino. Mùlán larga o tear e o substitui no Fronte. Ela enverga a armadura e a espada do pai, cinge os seios, disfarça os trejeitos femininos, trata de seus ferimentos em segredo, assim como se banha escondido. Por força de seu travestimento, é tomada como homem por seus camaradas combatentes.
Filha de pai sem concurso de mãe, seu destino é assexuado, não pode ter amante nem filho. Interrompe a cadeia das gerações, como se fosse um desvio do tronco central e a natureza a abandonasse por inviabilidade. Sua potência vital é voltada para trás, para o pai; enquanto ela for só do pai, não tomará outro homem. Presa ao laço paterno, mutilada nos múltiplos papéis que a natureza e a sociedade lhe oferecem. (GALVÃO, 1998, p. 11)
Pelo termo "pai" acima mencionado, pode-se tomar como nação para compreender a balada da guerreira-flor. Apesar de ter abdicado seu papel natural, Mùlán é marcada nas águas onde se banha escondida pelo sentimento/medo que a faz titubear. Forte como um dragão, e ao mesmo tempo trêmula como uma corsa; sofre a ação de terceiros sem reagir. É preciso seu amante morrer (Wentai) para ela cortar todos os laços emocionais e alcançar o ápice de guerreira. Ela se força a usar novamente a armadura para vingar o amado executado pelo inimigo. Por doze anos, Mùlán permanece nos campos de batalha a lutar contra as invasões dos sanguinários Rouran[3]. Também durante todo esse período, a personagem vive solitária, à margem.
Personagem já tão vulgarizada na China, a imolação de Mùlán está associada a um teor propagandista do governo. Isso se faz claro pelo desenrolar da narrativa, centrada na transformação de Mùlán que, enquanto general, deve guiar seus soldados, decapitar seus inimigos, lutar para vingar os irmãos mortos. Os deveres e responsabilidades de um líder são observados e prolongados ao longo da narrativa. Com o fim da guerra, a guerreira-flor deseja apenas retornar ao lar. É o cavalo a montaria utilizada para levá-la ao Fronte e ao retorno. Segundo Chevalier (2005), o cavalo simboliza na mitologia Chinesa a passagem do dia para a noite, da vida para a morte. Apresenta-se dessa forma a sua morte simbólica.
Alguém uma vez disse: quando você se afasta muito de casa, acaba esquecendo suas raízes; se matar muitas pessoas, acaba esquecendo de si; se morre no campo de batalha, sua vida cairá como gotas de chuva no chão; se você se apaixona por alguém, depois de sua morte ele levará seu corpo até o fogo e nunca esquecerá de você. (Huā Mùlán, 2009)

O vermelho-vivo jorra das veias do filho do imperador (Jong Toba) para nutrir e oxigenar a guerreira-flor. Esta nunca romperá o pacto com sua nação. “Não podemos escolher. Uma vez que você colocar a armadura, sua vida não é mais sua”, afirma o amante-morto em outro trecho da narrativa. Mesmo com a morte simbólica de Mùlán, ela só poderia se transformar em mulher mediante a intervenção de outro homem, como parceiro sexual. Isso lhe é impossível já que seu amante morreu em combate. Logo a felicidade de Mùlán está aquém de seus quereres, mesmo que correspondida. Ao cogitar-se a fuga, tem-se em resposta a necessidade de se sacrificar pela paz da nação.




Referências
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 23ª Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.
GALVÃO, Walnice Nogueira. A donzela-guerreira: um estudo de gênero. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1998.
Huā Mùlán (filme). Direção Jingle Ma e Wei Dong. Produção Starlight International. China, 2009, 113 minutos. DVD.
MARTINS, Maria. Ásia Maior: o planeta China. Prefácio Oswaldo Aranha - 2ª Ed. Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 2008.


Anexo I
A Balada de Mùlán
Texto retirado da Anthologie raisonné de la litérature chinoise, de G. Maargouliès, e traduzido, por Cecília Meireles, como Uma antepassada da ‘donzela-guerreira’.
Tsi-tsi, outra vez tsi-tsi / É Mùlán que tece à janela / Mal se ouve o ruído de seu tear: / Ouve-se, porém, seu suspiro, sua queixa. // Perguntemos por que está triste; / Perguntemos se é alguma lembrança; / Mùlán não está triste, / Mùlán não tem desgosto nenhum. / A noite passada, fez-se a convocação militar, / Pois o Khan prepara seus soldados. / A lista tem doze capítulos, / E em todos figura o nome de seu pai. / Mùlán não tem irmão grande, / Seu pai não tem um filho grande, / Ela quer comprar um cavalo / E partir por seu pai para a guerra./ / No mercado leste, compra um corcel; / No mercado oeste, compra uma sela; / No mercado sul, compra um freio; / No mercado norte, compra um chicote. // Ao amanhecer, diz adeus a seus pais, / Ao anoitecer, está à margem do rio Amarelo. / Mùlán já não ouve mais o chamado de seus pais. // Ouve por toda parte os cantos dos cavaleiros bárbaros nas montanhas. // Continua a correr para longe, / Atravessa a voar as montanhas. / O sol brilha no ferro, / O frio penetra na armadura, // Ela assiste a combates sem fim / E volta doze anos depois // O Imperador recebe-a / Sentado na sua vistosa sala; / O imperador condecora os soldados / E recompensa-os / Perguntam-lhe o que quer: / Mùlán não quer nenhum posto no palácio; / “Eu desejo apenas uma montaria veloz, que me leve à minha família”. // Os pais sabem que ela está de volta; / Correm depressa ao seu encontro, longe. / Apoiando-se um no outro / A irmã mais velha ouve que a irmã mais nova voltou; / Depressa, cola-se à sua janela. // O irmão mais novo ouve que a irmã mais voltou; / Depressa, afia uma faca / Para matar um cordeiro e um leitão // No pavilhão do Leste, ela abre sua porta, / No pavilhão do Oeste, senta-se em sua cama. //  Despe suas armas de guerra, / Veste suas roupas de outrora, / Penteia os cabelos à janela / Defronte ao espelho, enfeita-se com flores de magnólia // Sai para ver seus camaradas, / E os soldados estão todos muito admirados, / Pois passaram doze anos juntos / Sem saber que Mùlán era uma garota. // As patas do coelho pulam mais, os olhos da coelha são mais estreitos / Mas os dois coelhos correndo lado a lado junto ao chão não se pode distinguir / “E assim quem poderia dizer se eu era um rapaz ou uma garota!”





[1] Em Chinês, o sobrenome vem sempre em primeiro lugar. Por isso, Huā Mùlán.
[2] Texto na integra em Anexo I (GALVÂO, 1998, p. 13).
[3] Invasões de povos nômades, tendo destaque os Hunos - tribos de origem dos Rouran, apresentados em Huā Mùlán (2009). Os Hunos eram conhecidos por suas habilidades em combate com cavalo e disciplina militar. A principal fonte de sobrevivência desses era pela prática de ataques surpresa violentos, bem como de saque e pilhagem dos povos dominados.